Matrescência

Matrescência

Escrito em 24/06/2019

A gente sai do hospital com um filho nos braços, o título e a alma de mãe, uma vontade imensa de acertar e o comportamento de quem ainda tem chão pela frente. 

Existe um processo de se tornar mãe. E ele não acontece no parto.

Antropólogos o chamam de matrescência. Eu não sei descrever o quão maravilhoso foi encontrar essa palavra.

A psiquiatra Alexandra Sack, que fala sobre o tema como ninguém, conta que não é por acaso que a palavra matrescência se parece tanto com adolescência. Ambos são períodos de mudanças dramáticas no corpo, nos hormônios , nos sentimentos, na maneira como nos enxergamos e processamos emoções. A diferença é que todos sabem que a adolescência é intensa e difícil.

Não temos o mesmo olhar quando o assunto é se tornar mãe. Carregamos expectativas irreais. Recebemos o recém-nascido achando que o instinto saberá de tudo e que o desejo de colocar as necessidades do bebê em primeiro lugar será constante.

Só quem já ficou acordada por noites e noites entende que não é bem assim. Conhece o impasse interno. Somos todas mães e vocês sabem do que estou falando.

Na matrescência, as pessoas esperam que você aja com maturidade, que encare serena o abrir mão do controle da própria vida, do ritmo, do mundo como conhecia. Mas não é tão simples. A Dra. Alexandra descreve como um "empurra e puxa".

A ocitocina, hormônio que aumenta cada vez que você carrega, beija e cheira o seu bebê, avisa o cérebro que isso é amor. E que é dos grandes! Alertando sobre a importância daquele serzinho na sua vida. 

Por outro lado, nessa mesma mente, há lembranças recentes da vida como ela era. Da identidade que você levou anos e anos para construir e da segurança que isso traz. Do cotidiano, dos relacionamentos, das coisas que, de forma abrupta, abriu mão.

É uma luta real, não é hipotética. Sua com você mesma. Exige humildade, coragem, resiliência. E tempo. Sempre ele, o tempo. 

Trazer uma mãe ao mundo é tão desafiador quanto cuidar de um bebê. Agora imagine fazer os dois simultaneamente. Isso é matrescência.

É entrar em uma nova realidade. Um lugar em que cabe a mulher, em que cabe a mãe e em que nasce o doce espaço onde elas se misturam.

 

Fonte: Rafaela Carvalho | @a.maternidade