Expectativas relacionadas ao processo de adoção

Expectativas relacionadas ao processo de adoção

Escrito em 27/06/2017


A adoção é uma maneira de proporcionar uma família para crianças que não puderam ser criadas pelos pais que as geraram. Envolve também a possibilidade de ter e criar filhos para aqueles pais que não puderam ter ou escolheram cuidar de uma criança com quem não possuem uma ligação genética. 

O processo de adoção envolve aspectos jurídicos, sociais e afetivos, com uma série de formalidades e exigências. Requer a realização de uma avaliação para que se possa ter a habilitação ou não para a adoção. Mais especificamente, ao longo desse processo é necessário que a pessoa ou casal que se candidata possa passar por uma preparação psicológica a fim de compreender com clareza o que os mobiliza a adotar uma criança.

Existem diversos motivos que levam uma pessoa ou casal a adotar. Entre eles pode-se citar: tentativas frustradas de gerar um filho, como a infertilidade; vontade de formar uma família ou simplesmente de adotar uma criança; pessoas que não possuem um parceiro (a), mas que querem exercer a paternidade ou maternidade; vontade ter um filho sem ter de passar por um processo de gravidez ou talvez quando já não é mais possível ter um filho biologicamente; a perda de um filho biológico; necessidade de preencher um vazio; vontade de fazer o bem e ajudar uma criança necessitada... Enfim, os motivos são vários, sejam eles adequados ou não. 

Por essa razão, é necessário que os futuros pais busquem um trabalho de orientação psicológica a fim de compreender o que está implicado no processo de adoção. É importante que possam refletir e questionar: quais são os seus desejos, as suas expectativas, as motivações conscientes ou inconscientes e inclusive quais são as ideias errôneas e os preconceitos que envolvem a adoção. É muito importante que a pessoa que tem vontade de adotar uma criança possa refletir muito sobre a enorme responsabilidade que é adotar e criar um filho e que possa acomodar as suas expectativas, principalmente com relação ao que esperam de um filho e ao que idealizam dele.

Quando os sentimentos acerca da adoção não estão bem discriminados e elaborados isso pode acarretar em dificuldades futuras para a relação entre pais e criança. Tendo em vista que a maior parte das crianças disponíveis para a adoção vem de uma situação prévia de muita vulnerabilidade, abandono e maus tratos físico e emocional, os pais adotivos devem acolher, cuidar, amar, proporcionar uma base segura e saudável para o desenvolvimento dessa criança e inclusive compensar deficiências anteriores. Será necessário ter uma dedicação e paciência maior que o usual que vai gerar um desgaste emocional, pois existem dificuldades que são inerentes ao processo de adoção.

Os pais devem se preparar para um trabalho de muito investimento, pois certamente haverá diferenças entre o que desejam e a criança real que vão adotar, como por exemplo, as características biológicas da criança. Nesse caso, os significados associados a não ser parecido fisicamente e/ou não ter a mesma cor da pele, por exemplo, devem ser explorados e compreendidos.

É importante saber que o processo de adoção não se esgota quando recebem a criança e a levam pra casa. Esse novo momento será permeado por ambivalência, insegurança, medo, angústia e questionamento, pois o vínculo entre pais e filho não é imediato. Trata-se de um trabalho de adaptação mútua, uma relação de pai e filho e/ou mãe e filho que aos poucos vai ser construída.

Por todas essas e outras questões é fundamental que a pessoa ou o casal que quer adotar uma criança possa recorrer a um acompanhamento psicológico. Uma adequada orientação, além de um cuidadoso e profundo trabalho com suas expectativas pessoais pode prevenir futuros sentimentos de decepção, frustração, arrependimento e distúrbios na relação familiar. 


Elisa Cardoso Azevedo é Psicóloga (CRP 07/18079), graduada pela PUCRS.

É mestre em Psicologia (UFRGS), especialista em Saúde da Criança e do Adolescente (RIMS/HCPA) e especialista em Psicologia Hospitalar (HMV e HCPA).  Atualmente trabalha como psicóloga clínica no consultório particular, realiza formação em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica da Infância e Adolescência (CEAPIA) e faz doutorado em Psicologia (UFRGS) desenvolvendo estudos sobre a relação pais-bebês.

Contato: +55 51 99286.4919
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